26 de julho de 2010Crônica Motor

Quanto vale um título?

A ordem da equipe Ferrari a Felipe Massa para que entregasse a primeira posição ao companheiro Fernando Alonso estragou aquele que seria um domingo mágico para o piloto brasileiro. Mais que uma redenção, vencer no dia em que o acidente mais grave de sua carreira completava um ano seria um renascimento. Após uma largada de enorme oportunismo, que o fez saltar de terceiro para primeiro, Felipe foi valente, mesmo com um carro com o qual não se adaptou em momento algum. Com pneus duros, controlou os ataques de Alonso e depois consegui até andar mais rápido que o espanhol. Mas, por decisão da equipe, a volta triunfal ao alto do pódio não aconteceu.

As justificativas do time italiano para favorecer Alonso invertendo as posições – e, consequentemente, tirando a vitória de Massa – se escoram nos números. De acordo com os dirigentes, o bicampeão estava mais rápido que o companheiro nas voltas anteriores à ordem, e com uma considerável vantagem na pontuação até aquele momento. Além de ter àquela altura 31 pontos a mais que Felipe (uma vitória vale 25), Fernando estava em quinto no Mundial, com chances mais palpáveis de brigar entre os primeiros, enquanto o brasileiro figurava em oitavo na classificação. Porém…

Acontece que olhar o esporte como um amontoado de números só interessa aos estatísticos e aos homens de negócios. O que a Ferrari fez, mais uma vez, lembrando as inúmeras situações da era Jean Todt (hoje presidente da FIA), foi reviver com Massa e Alonso o embaraço hierárquico que envolvia Michael Schumacher e seus companheiros, de forma mais acintosa com o mais rápido e talentoso que já teve em toda carreira, o brasileiro Rubens Barrichello. O episódio deste domingo no GP da Alemanha suscitou, inevitavelmente, um marco desta relação profissional, quando Rubinho deixou o alemão ultrapassá-lo a metros da linha de chegada para vencer o GP da Áustria de 2002. Um episódio que rendeu à equipe uma multa em dinheiro, e uma mancha indelével no aspecto moral.

Ter um piloto campeão do mundo a qualquer custo é bom para os negócios da escuderia e dos seus patrocinadores? Depende. Infelizmente a história, passados os anos, adormece certas atrocidades, e a marca alcançada vira um dado como outro qualquer. Em termos mercadológicos, a coisa continua discutível, já que a vitória que os patrocinadores pretendem capitalizar no calor da conquista fica indissociavelmente ligada aos danos que manobras do momento causam àquelas mesmas marcas.

Mas nada disso se compara ao dano maior, causado ao esporte. O esporte, por mais profissionalizado e robótico que se torne, nunca vai deixar de ser um exemplo, um retrato para a sociedade. Assim como, sem determinados princípios que regem sua estrutura, ele deixa de existir. Sem competição, o esporte vira exercício físico, para os amadores, ou puro negócio, para os profissionais. Impedir que os pilotos de um mesmo time se eliminem é uma coisa. Impedir que eles possam competir entre si é outra. O que a Ferrari fez, e pelo visto vai continuar fazendo, temporada após temporada, pode até resultar em mais um título. Só que um título daqueles que envergonham os fãs dos pilotos, da equipe e da própria categoria. Uma estatística, sim. Mas nunca uma conquista.

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2 Comentários

  1. Escrito 26 de julho de 2010 em 18:56 | Permalink

    Falou, chorou, deu chilique, reclamou do Nelsinho e fez a mesma coisa.

  2. Escrito 27 de julho de 2010 em 00:51 | Permalink

    Infelizmente, mais uma vez temos um piloto brasileiro no epicentro deste terremoto. Rubens, Nelsinho e agora Massa. Sempre torci na Formula 1 por pilotos que conduzissem carros e não por equipes que conduzissem pilotos. Lamentável.

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Jornalista, 34, blogueiro, carioca, taurino, apaixonado e pseudopiloto de kart.