5 de abril de 2010Crônica Motor

Um soberano candidato a rei

A corrida de 2010 foi uma das mais interessantes dos últimos anos na Malásia. Movidos pela tensão causada em função da chuva que não veio, os pilotos não aliviaram na hora de ganhar posições. E o grande número de ultrapassagens – que só não foi maior por causa do talento daqueles que defendiam seus lugares – teve origem, em parte, na confusa classificação do sábado. Os favoritos que ignoraram as condições da pista, ficaram nos boxes esperando o asfalto secar e por isso acabaram partindo lá de trás, contribuíram decisivamente para o espetáculo em Sepang. 

Se as duplas de Ferrari e McLaren pareciam fora de combate, havia um favorito nas primeiras filas que não desperdiçou a chance. Sebastian Vettel, que nas duas corridas anteriores partiu da pole para liderar até ter problemas, desta vez foi imbatível. Como a obra prima criada por Adrian Newey não apresentou qualquer problema, o alemão só teve o trabalho de tirar a liderança do companheiro Mark Webber na primeira curva, com uma largada perfeita, para caminhar seguro até a vitória. Tão seguro que, da segunda volta em diante, pouco se viu as duas Red Bulls na transmissão. Algo facilmente explicável: enquanto a dupla do time austríaco abria vantagem, o bicho pegava em diversos pelotões, do terceiro ao 20º lugar. 

Vários pilotos mostraram combatividade ao longo da corrida, e alguns merecem menções honrosas. Nico Rosberg, terceiro colocado, o “primeiro do resto”. Mais rápido que Michael Schumacer durante todo o fim de semana, nem viu o companheiro abandonar com uma porca de roda solta e deu um pódio à Mercedes depois de 55 anos; Robert Kubica, consistente com a Renault, firme em quarto lugar; Adrian Sutil, sempre andando entre os primeiros, levando a Force India ao quinto posto; Jaime Alguersuari, aquele que segurou Schumacher na Austrália, mandou bem com ultrapassagens bonitas e uma tocada forte, pontuando pela primeira vez na carreira; e Nico Hulkenberg, companheiro de Rubens Barrichello, que aproveitou a boa posição de largada para marcar também seu primeiro ponto na F-1. 

Dos que vieram do fundão a contragosto, Lewis Hamilton foi o que mais chamou atenção. Infelizmente, não apenas pelas belas ultrapassagens que fez, mas também pela conduta anti-desportiva em alguns lances, especialmente ao bloquear Vitaly Petrov com um zigue-zague maroto. A agressividade exacerbada, espalhando demais as curvas quando a posição já está ganha, foi outro vício do inglês que se repetiu no GP malaio. As vistas grossas da FIA impediram uma punição que poderia até jogar Hamilton, sexto colocado, para fora dos pontos, e que certamente significaria uma nova derrota para o companheiro Jenson Button, que chegou duas posições atrás. 

Na briga Alonso x Massa, mais uma vez o brasileiro levou vantagem. Como acontecera com Felipe no Bahrein, onde o espanhol venceu a prova, desta vez foi Fernando quem teve problemas no carro. Guiando no sacrifício durante toda a corrida, inclusive com tempos de volta sensacionais em relação aos que estavam com o equipamento em ordem, o bicampeão acabou tendo o motor estourado na última volta, depois de uma ultrapassagem em Jenson Button. Com o abandono, seu ao companheiro de equipe alcançou a liderança do Mundial, mesmo chegando em um modesto sétimo lugar. 

Com a cabeça no lugar, Felipe não questionou a importância de ser o primeiro na tabela, mas minimizou a festa. Além de ter mais 16 corridas pela frente, ele sabe muito bem que foi a constância que lhe deu a ponta. Pois nem liderar uma corrida ele conseguiu até o momento. De qualquer forma, é ótimo vê-lo como candidato ao título depois de todas as incertezas que passou com o acidente de 2009. Aos outros brasileiros, resta a esperança. Rubens Barrichello, que perdeu qualquer chance de pontuar ao ficar parado na largada, ainda teve humor para brincar depois da corrida com Bruno Senna e Lucas di Grassi, que completaram um GP pela primeira vez. Mesmo com carros bem mais “porcarias” que o da Williams. 

A conclusão maior após este Grande Prêmio da Malásia é a confiramção daquilo que se desconfiava. Que, com ou sem chuva, seja qual for a pista, os carros a serem batidos estão nas mãos de Mark Webber e Sebastian Vettel. Sendo que o alemão, muito mais piloto que o australiano, é seríssimo candidato ao título. Um piloto de sangue azul que caminha a passos largos e soberanos rumo ao seu objetivo de se tornar o novo rei da Fórmula 1.

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Jornalista, 35, blogueiro, carioca, taurino, apaixonado e pseudopiloto de kart.