
Corrida rolando e a montanha russa importada de Suzuka funcionando: o novo cenário das 500 Milhas de Kart
Devo confessar que torci o nariz quando soube que a mais tradicional prova do kartismo brasileiro deixaria a pista da Granja Viana. Após 14 anos de sucesso e muitas histórias vividas no traçado da cidade de Cotia, na grande São Paulo, as 500 Milhas de Kart passariam a ser realizadas em um novo circuito, montado no complexo do parque Beto Carrero World, em Santa Catarina. Mais estrutura, mais espaço – claro, mais dinheiro em caixa – e mais condições de oferecer ao público e aos pilotos o máximo de conforto para aguentar uma corrida que, todo fim de ano, beira as 12 horas de duração.
Nestes quase 15 anos, os jornalistas especializados em esportes a motor se acostumaram a retratar e reportar a correria dos pilotos nesta maratona. O negócio ficou tão familiar que, em 2007, eles decidiram que deveriam viver ‘in loco’ esta experiência. Foi assim que surgiu a equipe dos jornalistas, que, em 2011, superou os próprios limites. O primeiro deles, reunir as condições necessárias para participar da prova fora de sua base, já que a maior parte dos membros reside na capital paulista. E mesmo contando com nove inscritos, nenhum deles profissional das pistas (e todos a serviço, na cobertura da prova), o time formado por representantes da imprensa não fez feio.

Mecânicos e pilotos da equipe dos jornalistas reunidos antes da primeira edição das 500 Milhas no Beto Carrero World
A viagem, em si, já foi uma grande curtição. Passar os capacetes no raio X do aeroporto é algo diferente para quem está habituado a viajar pelo país e até para outras cidades do planeta de gravador e câmera em punho. E assim fomos nós – fotógrafos, repórteres e assessores de imprensa, que começaram a correr em karts de aluguel e resolveram levar a brincadeira mais a sério. Eu, que passei a integrar o time no ano passado, na última prova realizada no kartódromo da Granja Viana, teria um desafio similar ao de todos ali: conhecer a nova pista, desenhada pelo alemão Hermann Tilke (inscrito na corrida, aliás), o mesmo que projetou uma dúzia de circuitos utilizados pela Fórmula 1.
Alvo de chacota nos primeiros anos, a equipe chegou à cidade de Penha recebendo incentivos de alguns colegas de pista mais famosos, como Felipe Massa, Rubens Barrichello, Tony Kanaan, Augusto Farfus, Lucas di Grassi, Valdeno Brito, Daniel Serra, Popó Bueno, Beto Monteiro e um dos grandes responsáveis pela nossa aventura, Felipe Giaffone, que também é promotor do evento. Dividindo o tempo e as atenções entre os boxes, o pit lane e a sala de imprensa, nos revezamos nos poucos treinos livres que tínhamos à disposição. Nem eram tão poucos assim, mas nós éramos muitos pilotos para um kart só. E como, é bom lembrar, estávamos a serviço para nossos veículos de mídia, chegamos à pista um dia depois de muitos que estavam ali somente para competir.
Então nos dividimos assim: Rodrigo França, Bruno Terena, Leonardo Murgel e Rafael Munhoz andaram no primeiro dia. Edu Baptista (nosso patrocinador), Carsten Horst, Cássio Cortes, o norte-americano Efrain Olivares e eu andamos no segundo. Quando chegou a minha vez, já era noite e havia começado a chover. Além da dura tarefa de conhecer a pista nestas condições, ainda experimentei pela primeira vez na vida um jogo de pneus para pista molhada, que tem lá seus segredos. Longe de estar confiante com a situação, errei algumas vezes o traçado e fiquei bem longe do limite, com medo de prejudicar o equipamento e a carenagem para a classificação, que aconteceria no dia seguinte.

Um treino curto, à noite e sob chuva foi minha única chance de conhecer o novo circuito das 500 Milhas
Apesar da evolução técnica (dos ‘pilotos’ e do time), a edição de 2011 foi a primeira em que o grupo da imprensa largou da última posição. A chuva intensa que desabou no qualify causou problemas no motor e o kart, guiado por França, não completou sequer uma volta rápida no treino para a formação do grid. A frustração pela 49ª posição nos acompanhou pelo resto do dia, muito por causa do potencial demonstrado nos tempos cronometrados nos treinos livres pelos mais rápidos do time. E só seria aliviada no sábado, com um bom desempenho na prova.
O dia começou com a ansiedade no rosto de quase todos. Após o briefing com a direção de prova, aproveitamos para decorar os capacetes com as iniciais LV – uma homenagem ao nosso grande amigo e companheiro de equipe Luiz Vicente, que havia perdido a vida poucas semanas antes, em um acidente de bicicleta. Aquela prova, fosse como fosse, não importando o resultado, seria dedicada a ele. Pensando assim, daríamos o nosso melhor nas 700 voltas de corrida. Ou em quantas conseguíssemos completar com o bravo kart 17.

A largada no estilo 'Le Mans', emoldurada pelo parque de diversões ao redor do novo circuito em Santa Catarina
A largada, no estilo ‘Le Mans’, é um grande barato. Acompanhei bem de perto, pois fui um dos últimos a deixar o grid. Assim como nos outros anos, França foi extremamente conservador, opção bastante sábia em se tratando de uma prova de resistência. Calmamente, completou a primeira volta em último lugar. E, pouco a pouco, foi avançando. Enquanto isso, nós, do lado de fora, nos empolgávamos com o que víamos. Com um ritmo consistente e sem erros, nosso kart escapava das confusões e ia ganhando posições. Depois de quase uma hora e meia de prova, a primeira troca de pilotos foi feita. Àquela altura, a equipe ocupava a 35ª posição na corrida. Mal podíamos acreditar.
As 500 Milhas sempre foram o lugar onde pilotos consagrados e os aventureiros como nós dividem o mesmo asfalto. Desde que, evidentemente, não os atrapalhemos na hora de tomar uma volta. Situação que se repetiu por 41 vezes ao longo das 700 que foram cumpridas pelo vencedor na corrida de estreia do kartódromo Beto Carrero World. Para se ter uma ideia do que são 12 horas de corrida, a turma que só andaria na segunda metade da prova teve seu horário de almoço reforçado com um pequeno passeio no parque, onde andamos na impressionante montanha russa importada de Suzuka, no Japão. Mais um momento de diversão para um grupo pra lá de animado como o nosso. A propósito, por mais que a gente adore a Granja, aqueles dias no Beto Carrero World serviram para provar, pelos mais variados motivos, que as 500 Milhas não poderiam ter uma casa melhor nesta sua nova fase.

Correr as 500 Milhas de Kart significa competir com nomes um pouco mais consagrados, como Felipe Massa
Envolvido com a cobertura da prova para o GLOBOESPORTE.COM e consciente de que nosso desempenho estava incrível para as circunstâncias, tomei uma decisão racional e bastante elogiada pelos colegas quando se aproximou o momento de cumprir o meu trecho de prova, já no fim da tarde. Sem referências de traçado devido ao treino noturno na pista molhada e percebendo que uma escapada significava a perda de muito tempo, já que não era permitida ajuda externa para retornar à pista, abdiquei do meu turno para não prejudicar a equipe. Todos, até então, haviam andado bem e trazido o kart inteiro aos boxes. Preferi não correr o risco de estragar tudo.
Naquele instante, estávamos na 30ª posição, desempenho que motivava cada mecânico a revisar com o máximo cuidado o equipamento durante as trocas de piloto. O maior problema que tivemos, por sinal, foi um desgaste excessivo dos freios, que obrigou a uma troca mais demorada para que completássemos a corrida. Como todos os competidores devem cumprir obrigatoriamente uma parada mínima de 15 minutos, usamos esta ‘janela’ para a manutenção e continuamos bem na prova.

Levar o kart 17 até o final da prova com a carenagem inteira era o grande desafio dos profissionais de imprensa
A noite chegou e a briga pela vitória pegava fogo. Líder de grande parte da prova, o kart 72, capitaneado por Barrichello e Kanaan, fez sua última parada nos boxes a menos de uma hora para o fim da prova. E voltou atrás do kart 2, da equipe de Christian Fittipaldi, guiado por Vitor Meira. A diferença de desempenho era visível, e Barrichello tirava quase um segundo por volta. Por ter feito uma parada a menos, Meira economizava combustível para chegar ao fim da prova. E, por pouco, a tática deu certo. Após 806 quilômetros, 700 voltas e 11h45 de corrida, o kart 2 recebeu a bandeirada três segundos à frente do adversário. Que chegou ‘escoltado’ pelo amarelinho da equipe dos jornalistas.
Os momentos que vieram a seguir foram uma grande comunhão de quem viveu aquilo tudo por dentro. A festa contou inclusive com nossos colegas Daniel Betting e Erica Hideshima, que cobriram nossa epopeia bem de perto e foram comemorar conosco aquele resultado. E que resultado! Depois de largar em 49º e último lugar, o kart 17 recebeu a bandeirada na 27ª posição. Outra vitória particular foi terminar a corrida com a carenagem inteira, enquanto muitos deixaram pedaços pelo caminho. Nos abraçamos bastante, gritamos um bocado e dedicamos o excelente desempenho ao nosso grande amigo Luiz. Aquelas 22 posições conquistadas tinham o dedo dele, de alguma forma.

Homenagem dos jornalistas ao colega Luiz Vicente, após o heroico 27º lugar na prova de quase 12 horas
Além do aspecto histórico de fazer parte da turma que estreou a nova pista, construída no parque Beto Carrero World, no litoral catarinense, a galera também já pode dizer que completou uma prova à frente de nomes como Lucas di Grassi e Felipe Massa, pilotos de Fórmula 1, cujos karts apresentaram problemas e perderam muito tempo nos boxes, e de um dos karts de Barrichello e Kanaan, que também teve problemas. No fim, o que importa é a diversão e a consciência de que realizar a fantasia de piloto é difícil, mas não impossível. Basta acreditar e, claro, continuar treinando.
A Indy como ela é
Um dia depois da etapa brasileira da Fórmula Indy, uma das coisas que mais li nas redes sociais foi que a categoria é mais legal porque é mais aberta, mais acessível, mais humana, mais isso, mais aquilo. Que as corridas são bacanas porque o cara bate, roda, é rebocado, aproveita a bandeira amarela e logo está lá brigando de novo. Que é diferente das demais porque há mulheres, há quarentões, há corridas de rua e, oba!, tudo bem perto do público. Porque as equipes são mais simples, portanto é preciso menos grana para correr, menos grana para assistir, puxa daqui, puxa dali, enfim: tudo é uma maravilha. É a partir daí que concluo, sem pudores, que a Indy é legal porque é tosca.
Sem desmerecer os propósitos e o posicionamento de mercado da categoria, na verdade é basicamente isso mesmo. E quase sempre foi assim. Nas internas, os norte-americanos e os green-cards se orgulham de não haver naquele ambiente o nariz empinado característico da Fórmula 1 – muito embora o sucesso já tenha subido à cabeça de alguns, e também de nem todos os pilotos e chefes de equipe serem exemplos de simpatia. Mas isso faz parte, existe em todo lugar. O problema é que, dentro do entendimento coletivo de que é preciso ser tosco para ser popular, algumas vezes a coisa ultrapassa certos limites, necessários e sadios para o próprio crescimento (ou renascimento) da categoria.
O lance de haver gente brotando de todos os lados – perto dos carros, dos pits, das garagens e seja mais onde for – é um bom exemplo. Pode ser uma experiência muito bacana para quem assiste (mesmo que este direito não seja extensivo a “todo mundo”, como se propaga por aí), mas atrapalha quem está ali trabalhando. De membros das equipes a pilotos, de médicos a fiscais de pista. E, claro, aos jornalistas. Que muitas vezes não conseguem uma palavra sequer do piloto porque ele é abordado por uma multidão de curiosos entre um deslocamento e outro e percebe, entre fotos e autógrafos, que parar para responder alguma coisa é o mesmo que jogar lenha numa fogueira acesa sob seus próprios pés. Quem somos nós para criticá-lo por isso?
Ainda falando em jornalistas, vale ressaltar que as entrevistas coletivas da Indy, pelo menos no Brasil, são um caso à parte. Se por um lado a sala de imprensa teve diversos pontos positivos – como internet gratuita de qualidade, almoço e mais rigidez no controle de entrada e saída de equipamentos –, por outro deu espaço a muita gente que dá um caráter duvidoso ao papel do profissional de imprensa. Foram credenciadas pessoas que, numa análise fria e impessoal, não deveriam estar ali, por melhores que fossem suas intenções ou por mais simpáticas que fossem com os demais. Não é este o ponto, mas sim uma questão de compreensão da coisa em larga escala. Sala de imprensa cheia é uma coisa. Cobertura ampla e qualificada é outra.
Em meio aos repórteres que estavam ali obedecendo a pautas, chefes, prazos e critérios editoriais, havia uma fauna diversificada, que ia de fãs deslumbrados a veteranos diplomados, porém sem qualquer preparo para uma cobertura automobilística. Gente que fazia perguntas vergonhosas, causando constrangimento aos pilotos e aos organizadores. Gente que passeava pelas garagens filmando e fotografando material que não saiu e não sairá em veículo algum. Gente que, mesmo sem intenção alguma de prejudicar, acaba por interromper, atrasar ou inibir a captação de matéria-prima para as reportagens que efetivamente divulgam a categoria, que a explicam para o público que dará audiência, que consumirá os produtos dos patrocinadores. E não importa, aqui, se o repórter vem de um grande portal ou de um site especializado, se é de um jornal de grande circulação ou de uma revista de distribuição dirigida. Para exercer a função jornalística, é preciso saber se portar.
Dentro de sua tosqueira programada, a Indy sabe bem o que quer. Tanto que o tetracampeão Dario Franchitti rechaçou, numa das entrevistas coletivas, qualquer apoio dele a uma nova internacionalização da categoria. Disse que o tripé público-patrocinadores-mídia se concentra no continente americano e que é por lá que eles têm que ficar se quiserem resgatar a popularidade e os bons momentos de outrora. E que é preciso manter a união, tal como fez a Nascar, para voltar aos dias de glória. No melhor esquema “nós é pobre, mas é limpinho”.
A corrida foi boa, o astral é legal, e em momento algum o staff – gringo ou nacional – deixou de ser prestativo. Mas há um limite para tudo, e nem é tão difícil resolver o que deu (ou vem dando) errado. A pista tem muitas ondulações? Dá para nivelar, com um pouco de boa vontade e competência dos órgãos públicos envolvidos. A champagne do pódio não abriu e os pilotos pagaram mico ao vivo? Deixem as garrafas semi-abertas no ano que vem. A emissora que transmite não consegue se entender com as 48 câmeras espalhadas pela pista? Basta contratar alguém que saiba lidar com isso. E para os que acham que a pista está montada em local nada aprazível visualmente para um circuito de rua, este é o menor dos problemas. Lembre-se que logisticamente é uma ótima escolha, já que os estrangeiros ficam hospedados literalmente dentro do traçado e estão a poucos minutos do aeroporto internacional. A etapa brasileira da Indy tem como melhorar, cada vez mais, sem perder a essência da categoria. Porque ser tosco nem sempre significa ser ruim.