
Rubens Barrichello e a camisa comemorativa dos 300 GPs
Uma ultrapassagem antológica sobre o ex-companheiro e eterno rival Michael Schumacher, elogios públicos da equipe pelo bom trabalho e o clima de comemoração por seu GP de número 300, recorde absoluto na Fórmula 1. Com um cenário como este, o momento não poderia ser mais propício para Rubens Barrichello encontrar os jornalistas brasileiros. Mas não foi exatamente para uma entrevista coletiva que ele reuniu mais de 40 profissionais da imprensa na última terça, dia 10 de agosto. Rubens aproveitou o período de férias da categoria para promover a segunda edição de um evento que fez sucesso em 2009 e cujo repeteco havia sido prometido para 2010: o Barrichello Kart Day.
Cumprindo sua 18ª temporada na Fórmula 1, na qual vem mostrando motivação e boa forma no mediano carro da Williams, o piloto aproveitou para compartilhar seu alto astral com os jornalistas no kartódromo da Granja Viana, a 50 km de São Paulo. Ampliou o número de convidados em relação ao ano anterior e se mostrou muito à vontade durante toda a tarde. Distribuiu sorrisos, conversou com todos e se divertiu bastante, dentro e fora da pista.
A mecânica desta segunda edição seguiu os mesmos moldes da primeira. Vestidos em macacões bordados com o logo do evento, os pretensos pilotos foram sorteados para duas baterias classificatórias em karts de lazer (destes que qualquer pessoa pode alugar para uma bateria entre amigos), com os oito melhores de cada uma classificando-se para a disputa final. Sempre com as dicas preciosas do anfitrião, que fez questão de entrar na pista nas duas primeiras corridas. Uma situação que ele próprio resumiu bem: “eu ajudando e vocês se matando”.

Rubens posa com os jornalistas uniformizados, antes da largada da primeira bateria do Barrichello Kart Day 2010
Pois é, se engana quem pensa que jornalista que cobre automobilismo acha que o importante é competir. Para esta turma, que não suporta perder nem disputa de par ou ímpar, a corrida promovida por Barrichello, apesar de estar ainda em sua segunda edição, já é tratada como uma espécie de “prova do milhão”. Claro que nem todos os presentes faziam parte da manada de viciados – à qual me incluo, evidentemente – que corre mensalmente neste tipo de kart, o que criou diferenças de até cinco segundos entre os que entraram na pista. De um lado, estavam os iniciados, buscando o melhor tempo e brigando pelos primeiros lugares; de outro, os novatos, experimentando, na prática, uma amostra do que Rubens Barrichello enfrenta em seu dia a dia nas pistas de corrida.
Amigos velozes
Assim como em 2009, tive o prazer de comparecer ao evento. E desta vez sem a obrigação de trabalhar, já que a amiga e colega do SporTV, Erica Hideshima, se dispôs a cobrir o Barrichello Kart Day para o programa Linha de Chegada na Pista. Isso me deixou livre para correr sem me preocupar com as imagens, as entrevistas e tudo mais que envolve a produção de uma matéria. Uma pena que alguns dos convidados, atarefados em suas redações, não puderam comparecer. Mesmo assim, foi possível rever grandes amigos, reencontrar pessoas que só vejo em autódromos e também ser apresentado a figuras que não conhecia pessoalmente, como o videorrepórter gente boa Rodrigo Leitão.
Repetindo o que acontecera no ano anterior, meu nome foi escalado para a segunda bateria classificatória. Já vestido para a minha prova, tratei de assistir à primeira à beira da pista. E pude ver de perto uma disputa incrível pela liderança entre Rodrigo França e Betto D’Elboux (vencedor do BKD 2009), que foi acompanhada de forma participativa por Barrichello, ora atrás dos dois, ora à frente, indicando o melhor traçado com seu kart número 11.

Barrichello acompanha a briga pela liderança na primeira classificatória entre Betto D'Elboux (17) e Rodrigo França (40)
Quando chegou minha vez de guiar, o assistente do cinegrafista Sidney Turaça apareceu com uma surpresa: uma câmera mini DV presa ao meu capacete, para filmar minha corrida. Meio sem jeito, tive que alertá-lo que a posição de um piloto no kart, com a cabeça voltada um pouco para baixo, deixaria o enquadramento comprometido. Mas ele insistiu que estava tudo OK, e fui para a pista assim mesmo, tentar a melhor posição num grid relativamente mais forte do que na prova anterior. O que tornava um pouco mais difícil, mas nada impossível, a missão de classificar para a final.
Luz, câmera, velocidade!
Já no qualify, percebi que meu kart era bom e tratei de mandar ver nas voltas lançadas. Só consegui pista limpa na última delas, e marquei o sexto tempo entre 17 competidores. Meio caminho andado para a final, pensei. Antes de dar a largada, Rubinho deu risada da trapizonga montada no meu capacete na base da fita crepe e autorizou o início da prova agitando a bandeira verde. Enquanto descíamos em direção às três primeiras curvas, ele andou calmamente até seu kart, colando em seguida no pelotão com uma volta de atraso para ajudar (ou brincar, dependendo da proposta de cada um) os jornalistas que estavam na pista.
Acontece que o intrépido repórter Ivan Moré, do Globo Esporte, teve a ideia de levar o atacante Lenny, do Palmeiras, para correr conosco. E até que o rapaz fez bonito, marcando o oitavo tempo no grid. Daí bastou rolar uma esperada confusão na primeira curva fechada do traçado para que ele, bem posicionado, pulasse para quinto. Como o entrevero aconteceu bem na minha frente, tive que dar uma tremenda volta para escapar, e voltei em sétimo, embora os três envolvidos tivessem largado à minha frente. Entre Lenny e eu, estava Felipe Motta, da rádio Jovem Pan.
Talvez assustado com o empurra-empurra das primeiras curvas, Lenny percorreu toda a primeira volta aliviando o acelerador nas curvas. Isso deu uma vantagem aos quatro primeiros e formou uma massaroca de karts atrás de nós, todos ávidos para nos ultrapassar. Optei por esperar o retão antes de tentar alguma coisa, uma vez que o Motta não arriscava uma ultrapassagem e só comboiava o moleque. Mas aí comecei a tomar uma pancada maior que a outra do pessoal que vinha atrás. Trancos que me fizeram frear deliberadamente em determinados trechos, no intuito de impedir uma rodada e, por tabela, evitar um toque involuntário no colega da frente, que poderia tirá-lo da disputa.
Mesmo transferindo menos de um terço dos empurrões que eu recebia, percebi que o colega começou a gesticular de maneira frenética na minha direção. Ao iniciar a subida, vendo que o cara olhava mais para mim do que para a pista, botei o kart de lado e fiz sinal para que ele seguisse em frente. Foi quando veio uma manobra que me deixou absolutamente atônito: em vez de fazer a curva para a esquerda, ele virou o volante para a direita e saiu do traçado, me levando junto. Enquanto eu tentava entender se aquilo era de propósito ou não, dois karts nos ultrapassaram.

Corrida para recuperar posições na primeira bateria, levando uma câmera que registrou muito bem meus pedais
Após a saída de pista, emparelhamos no retão e notei que os gestos continuavam. Tive certeza da intenção na manobra anterior, mas preferi deixar pra lá. Tentei ultrapassá-lo, mas estava por fora e não consegui. Sem contar que ele parecia disposto a não me deixar ganhar a posição de forma alguma. Para provar que não precisava de totó nenhum, decidi que faria a ultrapassagem sem sequer encostar no kart dele. E foi meu erro. Ao tomar uma fechada na segunda volta, reagi no reflexo, rodei sozinho e caí ainda mais. Pelo menos uns três karts me superaram nessa brincadeira.
Nadando contra a corrente, só para exercitar
Como tinha consciência de que apenas os oito primeiros conseguiriam se classificar e que a corrida teria apenas 20 minutos, comecei a guiar feito um alucinado. Vinha tirando mais e mais do kart a cada volta, ganhando posições e controlando a distância para quem vinha à frente. Peguei a manha das curvas mais difíceis e passei a usar isso na hora de pressionar os adversários. E vez de frear lá na sujeira, apenas fazia meu traçado e lucrava com os erros alheios. Foi nesta fase da prova que encontrei Barrichello na pista pela única vez. Ele ajudava dois pilotos que brigavam por posição, percebeu minha aproximação e abriu. Colei nos caras, aproveitei a rebarba de uma esfregada mútua na saída do grampo (mesmo ponto onde eu havia rodado) e passei literalmente entre os dois. Ainda sinalizei para o piloto da Williams, pedindo que me empurrasse dali em diante, mas ele ficou acompanhando o pega dos caras e não foi atrás de mim.

O anfitrião Rubens Barrichello guia o kart 11 dutante a segunda bateria classificatória, garantindo boas gargalhadas
No fim, já conformado com a sétima posição que dava direito a uma vaga na final, ainda ganhei um presente. Vi a placa ‘1 volta’ na mão do fiscal e tentei tirar a diferença que me separava do Ivan Moré, o sexto. Fiz o que pude, mas não foi suficiente. Na última curva, preparado para receber a bandeirada, lamentei, naquela de ‘mais uma volta e eu passava ele’. E não é que minhas preces foram atendidas? A placa que eu vira na volta anterior era na verdade para o líder, que vinha atrás de mim. Assim, tive a volta que precisava e superei o colega da Globo. Aí sim! Depois de cair para décimo-sei-lá-quanto, terminei a prova em sexto lugar, feliz e exausto. Uma das grandes corridas da minha vida.
Só então que o ‘gênio’ aqui se ligou que não bastava estar na final, era preciso também disputá-la. Praticamente sem forças ao sair do kart, fui para a área de apoio beber alguma coisa. Tomei dois copos de água e rebati com um suquinho em lata que parecia bem apetitoso. A sede parecia não ter fim, e mal me aguentava de pé. O cansaço tinha razões óbvias. Além de fazer uma corrida de recuperação, ainda precisei lidar com a falta de aderência, já que fazia apenas 15 graus em Cotia. Às vezes parecia que o kart não conseguiria fazer a curva.

Dono da festa, Rubens Barrichello dá a largada para a corrida decisiva do Barrichello Kart Day 2010
A hora da verdade
Com o céu escurecendo e a ameaça de que aquela tarde nublada virasse chuva, não tivemos muito tempo para descansar. Algumas desistências deram vaga aos que não haviam se classificado para a final, e lá fomos nós para a pista novamente. Desta vez para uma bateria de 25 minutos, o equivalente a sete voltas a mais em relação à corrida anterior. Eu e mais quinze bravos jornalistas-pilotos, já combalidos pela primeira prova, formamos o grid decisivo. Mal acreditei quando conquistei a quinta posição, o que me garantiria um troféu entregue pelo dono da festa. Mas foi só ele dar a largada para eu cair na real de que, daquela vez, o buraco era bem mais embaixo.
Como meu kart demorou a sair do lugar, já fiz a primeira curva em sétimo lugar. Dali em diante, assisti aos seis primeiros colocados se estapeando na briga por posições. Já sem força nos braços e com as costelas doendo muito, não conseguia mais forçar o ritmo e apenas me preocupei em não errar, na esperança de que sobrasse alguma coisa daquela batalha campal. Mas não sobrou. Para completar, na metade da corrida o suquinho do intervalo resolveu trocar uma ideia e, para não ter que falar pessoalmente com ele dentro do capacete, dei uma aliviada no acelerador. O colega Nei Tessari, que vinha na minha cola desde a largada, me ultrapassou sem muita dificuldade e ficou com o sétimo posto. Andamos juntos até o fim da prova, que concluí a menos de dois segundos dele, mas a 40 do vencedor.

Momento em que o jornalista Rafael Munhoz recebe a bandeirada, tornando-se o vencedor do BKD 2010
Quem faturou o primeiro lugar foi Rafael Munhoz, da revista Racing. Luiz Vicente, Rodrigo França, Betto D’Elboux e Cássio Cortes completaram, nesta ordem, a turma que levou um troféu para casa. E eu, pelo menos, não passei pela temida experiência de terminar em sexto, que deve ser a posição mais frustrante deste evento. Impressão que se acentuou ainda mais quando vi o Rubens autografar os troféus da rapaziada… Enfim, agora é pensar em 2011. Se possível, com menos peso, mais fôlego e com a mesma disposição para acelerar e me divertir ao lado do recordista de participações na Fórmula 1.
Valeu, Rubinho! #tamojunto
Para ler o post sobre a edição 2009 do Barrichello Kart Day, clique aqui.
F-3 Sudam, 1999
Você consegue identificar os promissores rapazes aí da foto? Trata-se da turma de 1999 da Fórmula 3 Sul-Americana, época em que a categoria ainda tinha equipes e pilotos estrangeiros em razoável número. Confesso que só reconheci metade deles. Tem gente que hoje em dia anda na Stock Car, outros no Troféu Linea, alguns estão no exterior e outros pararam de correr. Se descobrir quem é quem, deixe seu comentário!