23 de fevereiro de 2012Crônica

Gênios criativos, diferentes gerações

Após o título da Unidos da Tijuca no Desfile das Escolas de Samba do Grupo Especial do Carnaval 2012, li muitos elogios ao carnavalesco Paulo Barros, responsável pela nova linguagem e por grande parte das surpresas apresentadas na Sapucaí nos últimos anos. Mas o que me chamou atenção foi o grande número de comparações com o mestre Joãosinho Trinta, falecido recentemente, que mexeu com a forma de se fazer Carnaval nos anos setenta e oitenta. Não vejo da mesma forma, e aproveito para fazer uma analogia com os gênios da engenharia que revolucionaram a Fórmula 1. Em ambos os casos, são épocas e contextos diferentes, e é preciso que isso sempre seja lembrado.

Colin Chapman, o fundador da Lotus: o homem que virou lenda na história da Fórmula 1

Considero que Joãosinho Trinta foi o Colin Chapman do Carnaval. Um gênio intuitivo, que ousou, experimentou e transformou conceitos, estabelecendo uma nova forma de se enxergar as coisas. Assim como o fundador da Lotus, que implantou os aerofólios, testou novos materiais e soube interpretar regulamentos à sua maneira, num momento em que o dinheiro começava a falar mais alto que a pureza dos entusiastas. Em um cenário parecido, Joãosinho mesclou luxo e lixo, ousou nas cores, despiu, fantasiou. E o Carnaval virou, então, um espetáculo internacionalmente reconhecido.

Já Paulo Barros é o Adrian Newey, o engenheiro que a partir da década de noventa desenvolveu projetos vitoriosos na Williams, na McLaren e que atualmente está brincando e siga-o-chefe na RBR. Logo em seus primeiros projetos, o discreto inglês inovou, demonstrando preocupação com os detalhes e mostrando um caminho que levou a Fórmula 1 a se tornar escrava de um elemento paralelo, a aerodinâmica. Da mesma forma, Paulo Barros levou novos conceitos à Avenida. Além da percepção refinada com alegorias, aperfeiçoou as apresentações emplacando alas e carros coreografados, no melhor estilo ‘Broadway’. O que obrigou os rivais a surpreender e inovar para não cair no lugar comum.

Da mesma forma que a Fórmula 1 precisou criar uma comissão para restringir o avanço aerodinâmico, que estava prejudicando as ultrapassagens, é possível que em um futuro próximo a Liga das escolas de Samba precise se reinventar pra voltar às raízes e não deixar o samba em segundo plano. Pois Carnaval, assim como nas corridas, não se ganha apenas com boa vontade. Mas, se perder sua essência, pode virar somente um negócio milionário.

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Jornalista, 35, blogueiro, carioca, taurino, apaixonado e pseudopiloto de kart.