25 de janeiro de 2012Crônica Motor

Automobilismo, esporte coletivo

Este repórter de esportes a motor que vos escreve publicou nesta quarta-feira, no GLOBOESPORTE.COM, uma matéria sobre o fim do autódromo de Jacarepaguá e as complicações no processo de construção de um novo circuito em Deodoro, no subúrbio carioca. Um texto baseado nas opiniões contundentes de quatro pilotos bem sucedidos na Stock Car, a principal categoria do Brasil, que ressaltam o prejuízo de destruir um circuito tão importante para o automobilismo brasileiro.

Aqui, uma observação fundamental: “importante” não apenas pela história de décadas de eventos relevantes, como Fórmula 1, Indy e o Mundial de Motovelocidade. Mas importante, principalmente, como instrumento de fomento do esporte e de todos os benefícios que ele produz à sociedade, inclusive economicamente.

Voltando à referida matéria, é preciso admitir que não foi ela a motivação para este texto, e sim alguns comentários lá deixados pelos leitores. Que, decerto, não têm a dimensão de quanto o esporte a motor movimenta uma extensa cadeia produtiva, tanto no setor industrial quanto no de serviços. E que, diga-se, está longe de ser algo voltado apenas para os vinte e poucos caras que alinham para uma corrida.

Aliás, este é um detalhe que passa batido por muita gente: o automobilismo não é um esporte individual nem no momento em que o piloto está sozinho no carro, guiando a centenas de quilômetros por hora. Para um competidor cruzar a linha de chegada como vencedor de uma prova, há uma rede de profissionais com atribuições em diferentes áreas, que tornam este esporte irreversivelmente coletivo. Muito mais do que qualquer outro, provavelmente.

Disse um leitor, por exemplo, que não há sentido preservar um autódromo, já que trata-se de “uma área gigantesca que fica praticamente sem uso o ano inteiro”. Pois bem. Entre treinos particulares, aulas de pilotagem, eventos corporativos e etapas de campeonatos regionais, nacionais e internacionais, um circuito tem seu calendário preenchido em praticamente 90% dos dias de um ano. Mais que o triplo da utilização de um estádio de futebol, por exemplo. Mas quantas pessoas efetivamente sabem disso?

Evidentemente, na lista das diversas atividades de um autódromo ao longo de uma temporada, orbitam centenas de empregos diretos e indiretos. Isso sem contar o staff das categorias que visitam os circuitos para realizar suas etapas. Em cada uma delas, há um esquadrão de pessoas distribuídas em áreas como engenharia, logística, telecomunicações, marketing, imprensa, entre muitas outras funções. E cada equipe que participa destes campeonatos também traz consigo, além de carros e pilotos, um universo de profissionais a reboque.

Isso vale para todo e qualquer campeonato, de qualquer porte, de qualquer âmbito. Para usar a Fórmula 1 como exemplo, note bem nesta foto da equipe McLaren, feita no fim de semana do GP do Brasil de 2011. Além do carro e dos pilotos, há 80 profissionais na imagem. Que correspondem – repare bem – apenas ao pessoal de pista, aquele time que viaja para todas as etapas. Se tal foto fosse feita na fábrica da equipe, provavelmente este número ultrapassaria um milhar.

E o que toda esta gente, trabalhando com automobilismo, significa? É gente que sustenta famílias; gente que movimenta a economia local e global; gente que ajuda a desenvolver a tecnologia que talvez venha a ser usada nos carros de rua destes mesmos leitores algum dia. Ou gente que, simplesmente, ajuda a construir um país mais forte.

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5 Comentários

  1. Escrito 26 de julho de 2012 em 01:06 | Permalink

    Alexander, eu gostaria de ver um autodromo privado aqui no Brasil. Mas 100% privado mesmo, desde a compra do seu terreno. A maioria das praças esportivas espalhadas pelo Brasil, desde as cidades menores as maiores, os principais locais da prática de atividade física foram construídas no período da ditadura. Isso vale para estádios, ginásio e até mesmo para alguns autodromos.
    Será que só no Brasil não é rentável ter algum autodromo assim? O Velopark é 100% particular? Agora, tem um autodromo novo se não me engano no interior de SP da Mitsubishi. É privado também? Não seria hora do governo pressionar as montadoras com esse aquecimento que o Brasil vive economicamente e elas começarem a se mecherem para investir em um autodromo? Vimos aí clubes de futebol em parcerias com empresas para ser nome dos estádios e tal… A CBA é uma grande trava para o automobilismo. Por pior que seja a CBF é uma empresa que fatura mundos e fundos. E a CBA?
    Um abraço

  2. André Oliveira
    Escrito 26 de julho de 2012 em 01:08 | Permalink

    Perfeito, Alex! O exemplo mais gritante disso é a Nascar, com seus mega shoppings em cada autódromo e o povão passando o fim de semana inteiro em seus motorhomes, fazendo churrasco dos treinos até a corrida. É um programa família que movimenta bilhões só nos EUA.

  3. Cesar Vilanova-Costa
    Escrito 26 de julho de 2012 em 01:20 | Permalink

    Esporte individual?! Somente para poucos?!
    Cada vez se mostra mais a total falta de informação de quem fala essas idiotices idiotices!

    Exemplo: Somente as 24 horas de Le mans de automóveis, é responsável por boa parte da RENDA ANUAL de toda uma região da França (Pays de La Loire), isso sem falar as 24 horas de moto e os outros eventos. Durante as duas semanas da corrida, a cidade de Le Mans e suas vizinhas, recebem um número de até três vezes o tamanho de sua população!
    Todo mundo ganha: Os patrocinadores, os organizadores, o público que vai assistir ao evento e, PRINCIPALMENTE, a população local, seja em infra-estrutura, em relações comerciais e até culturalmente.

  4. Felipe Siqueira
    Escrito 26 de julho de 2012 em 14:28 | Permalink

    Texto excelente, Grun. Parabéns! Rebateu aqueles que diminuem o automobilismo com argumentos contundentes e destacou pontos muito pertinentes. Para finalizar uma foto mais ilustrativa que essa, impossível!

  5. marcello barros
    Escrito 29 de julho de 2012 em 09:56 | Permalink

    Com certeza , 100% correto a sua opnião , trabalho aqui no autódromo há mais de 10 anos colocando o Som, cobro bem abaixo do valor de mercado.Sabe porque? porque AMO ISSO AQUI!!! Desde criança , na época meus pais não tinham dinheiro para comprar ingressos , mas eu sempre dava um “jeitinho ” pra ver as corridas de fórmula 1, moro aqui pertinho, lá de casa escuto o ronco dos carros e motos e hoje participo também do Bike day , pois moto é minha paixão. E te digo mais , ainda tenho fé e esperança de que os ventos irão mudar a nosso favor, sei que tem gente boa também lá no poder que tá vendo essa bagunça e falta de respeito com a história do nosso autódromo e na hora certa irão intervir pois isso tudo que tá acontecendo aqui é um ABSURDO!!! PELA REFORMA DE NOSSO AUTÓDROMO JUNTO COM AS INSTALAÇÕES PARA AS OLIMPÍADAS SIM!!! APÓS AS OLIMPÍADAS AUTÓDROMO DE JPA REABERTO E PRONTO PARA F1, MOTO GP E INDY. OU SERÁ QUE É IMPOSSÍVEL?
    DEMOLIÇÃO E DESTRUIÇÃO DA HISTÓRIA AUTOMOBILÍSTICA NACIONAL E MUNDIAL NÃ11
    PODERIA ATÉ SER TOMBADO COMO PATRIMÔNIO HISTÓRICO

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Jornalista, 35, blogueiro, carioca, taurino, apaixonado e pseudopiloto de kart.