12 de janeiro de 2012Autoteca

Livros velozes: Não sou um anjo

Frio, ambicioso e temido por inimigos e aliados, Bernie Ecclestone é o chefão máximo da Fórmula 1. Mas não é só isso. Pode-se afirmar, sem medo de errar, que pertence a este inglês baixinho e de poucas palavras o mérito de transformar grandiosamente a categoria no formato em que a conhecemos hoje. De um campeonato promovido por entusiastas a um evento global, com altíssimo valor de mercado e desejado por anunciantes e redes de televisão de todo o planeta. Um caminho que o britânico, com seus mais de 80 anos de idade, percorreu bem à sua maneira. É como ele mesmo admite: ‘não sou um anjo’.

Aliás, não haveria título mais apropriado para uma biografia do dirigente, que viveu durante a infância nos subúrbios de Londres em contato com os medos e incertezas da Segunda Guerra Mundial e que ganhou seus primeiros bens materiais vendendo motos e carros usados assim que a paz se restabeleceu. O livro, com cerca de 500 páginas, é baseado na intensa pesquisa e nas entrevistas que o renomado biógrafo Tom Bower fez com o próprio Bernie para obter revelações exclusivas de um ‘jogador’, que fazia questão de criar diferentes versões de um mesmo fato somente para confundir seus adversários no mundo dos negócios.

Surpreendentemente, Ecclestone falou bastante sobre seu passado nas conversas com Bower. O que rendeu um apanhado bem completo sobre um homem que deu pouca importância à família ao longo da vida e que teve sua dedicação aos negócios pontuada por sucessos pessoais e tragédias com muitos dos que o rodeavam. Caso do amigo Jochen Rindt, piloto que Bernie empresariou antes de aventurar-se como representante da associação das equipes (e posteriormente como diretor de promoções da FIA). A morte prematura do austríaco, que acabou por se tornar o único campeão póstumo da F-1, foi um episódio que estremeceu o aparentemente inabalável Bernie, a ponto dele pensar em abandonar as competições e voltar a ser apenas um vendedor de carros.

Curiosamente, este é um aspecto que chama bastante atenção na história do ‘capo’ da categoria máxima do esporte a motor. Em meio a tantas manobras comerciais controversas e eticamente discutíveis, salta aos olhos o desejo de estar envolvido com as corridas, mesmo diante de revezes, prejuízos financeiros e perdas de amigos próximos. Caso da vez em que, ainda jovem, dispensou um piloto porque se encantou com as ruas de Monte Carlo. De chefe a piloto, Bernie quis disputar a prova, ele próprio, em vez de vender o carro após uma provável boa exibição de seu então contratado. Coisas de um homem que acumulou uma das maiores fortunas de toda a Europa.

A obra passeia pelos bastidores da F-1 e pelas complexas negociações políticas envolvendo donos de circuitos, promotores de corridas e até nomes fortes, como o presidente da Federação Internacional de Automobilismo, o francês Jean-Marie Balestre – que, diga-se, Bernie transformou em um tolo e manipulável aliado. Em sua versão brasileira, o livro ganhou ainda mais conteúdo, já que foi adaptado por Reginaldo Leme, jornalista com quatro décadas de convivência com o universo da categoria, que acrescentou dados e informações que não constam na edição original, em inglês. Mais um ponto favorável em um material precioso para aqueles que desejam entender melhor as razões do sucesso da Fórmula 1.

Ficha técnica
Título: Não sou um anjo – revelações inéditas de Bernie Ecclestone
Autor: Tom Bower, com adaptação e colaboração Reginaldo Leme
Editora: Novo Conceito (no Brasil)
País de origem: Inglaterra
Formato: 16 x 22,5 cm
Lançamento: 2011
Páginas: 520

Texto
Alexander Grünwald – About Grün

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Jornalista, 35, blogueiro, carioca, taurino, apaixonado e pseudopiloto de kart.