20 de junho de 2009Crônica Motor

Irmão de cor

Uma das mais fortes impressões deixadas pela longa passagem de Rubens Barrichello pela Ferrari é a de que ele nunca se sentiu, efetivamente, parte daquela família. Podia até falar isso da boca pra fora, mas em pequenas atitudes (atos falhos?), deixava a verdade transparecer. A de que não estava, de fato, confortável com a situação de segundo plano à qual era colocado dia após dia, mesmo sabendo que foi da mão dele próprio que partiu a assinatura que concordava com aqueles termos.

Um sintoma claro de sua síndrome de filho bastardo no seio da Scuderia (apesar do sobrenome italianíssimo) era a maneira com que o brasileiro tratava o time nas entrevistas. “Eles” isso, “eles” aquilo, repetia insistentemente, ao passo que o companheiro de equipe usava sempre outro pronome – “nós” – para se referir ao grupo de trabalho que lhe dava tantas vitórias e títulos, e com quem estabeleceu uma das mais bem-sucedidas parcerias da história do esporte a motor. Uma diferença conceitual, básica e fundamental.

Rubens Barrichello e Jenson Button se abraçam ao término do GP da Espanha de F-1 2009 / Foto: GP Update - Crédito: Sutton Images

Um dia, Rubens cansou. Chutou o balde, desencanou. Achou que já tinha feito muito por “eles” sem nada em troca, pediu o boné e fez as malas para a Honda. Onde, apesar dos carros ruins que guiou por três anos, sempre garantiu que o ambiente era dos melhores. Passou a usar mais o “nós” nas suas declarações; redescobriu o encanto de estar num lugar onde sua opinião conta, onde o chefe te respeita, coisas que já havia vivenciado anos antes, nos tempos da extinta Stewart.

Eis que, quando era dado como carta fora do baralho da F-1, Rubens foi recolocado pelo destino na categoria, pelas mãos salvadoras de Ross Brawn. Com ele e com Jenson Button nos cockpits, nascia a Brawn GP, equipe unida, motivada e competente, liderada pelo homem que fazia parte daquele time que Rubens um dia chamou de “eles”. Mas OK, sem crise desta vez. Agora, ele, Brawn, estava definitivamente ao seu lado. Movido pelos mesmos ideais, buscando os mesmos objetivos.

 Rubens Barrichello durante o fim de semana do GP da Turquia de F-1 2009 / Foto: GP Update - Crédito: Sutton Images

Na primeira corrida de 2009, na Austrália, a sinergia de Barrichello e de seu companheiro com o novo time foi imediata. Não só pela dobradinha na primeira fila e no pódio. Mas principalmente pela atitude desprendida de ambos, que modificaram as cores de seus capacetes para que ficassem similares ao layout do carro, à base de tinta branca e amarelo marca-texto. Tudo lindo, maravilhoso. Um conto de fadas.

E assim foi por quatro corridas. Três delas vencidas por Button, que foi quatro vezes ao pódio, contra apenas uma de Rubinho. Um início conturbado para um ano que prometia um mar de rosas, uma honrosa volta por cima. Foi então que Rubens, movido por superstição ou por outra razão qualquer, voltou a usar as cores originais em seu casco. Tal como acontecia na Ferrari, diferenciando-se de forma clara do companheiro de equipe. Vale lembrar que, à época, o alemão corria todo de vermelho, combinando totalmente com a pintura do carro italiano.

Jenson Button e seu capacete especial para o GP da Inglaterra de F-1 2009 / Foto: GP Update - Crédito: Sutton Images

Mas de nada adiantou a alteração. Button continuou ganhando corridas e Barrichello, ainda com a ‘faca nos dentes’, seguiu lutando para chegar ao menos na segunda posição. O que nem sempre aconteceu nas três corridas que ele disputou com a combinação azul-branco-vermelho. Ao fim de sete provas, um saldo indigesto: seis vitórias do inglês, nenhuma do brasileiro e 26 pontos de diferença entre os dois.

Em Silverstone, sua terra natal, JB mudou pela primeira vez o layout Brawn que vinha utilizando desde o início da temporada. Através do tradicional concurso anual no seu site oficial, elegeu uma pintura criada por um fã para adornar seu capacete. Saiu-se com um elegante design de um predominante branco, com a bandeira britânica aplicada em forma de vários círculos, tendo a expressão “push the Button” (aperte o botão) bem próxima.

Aí, na outra ponta do Box, eis que Rubens volta atrás, aparecendo novamente com o amarelo marca-texto impresso no capacete. E logo na terra do chefe, do companheiro, enfim, de todos os que trabalham com e para ele. O verdadeiro papel de um bom filho, que mesmo insatisfeito com as atenções exacerbadas ao irmão, torna à casa onde sempre se sentiu parte da família. Mesmo que vestindo outro uniforme em algumas ocasiões.

Rubens Barrichello durante o fim de semana do GP da Inglaterra de F-1 2009 / Foto: GP Update - Crédito: Sutton Images

Coincidência ou não, talvez, quem sabe, possa estar aí a chave para abrir a porteira que permitirá passar a boiada de vitórias que está entalada no curral do brasileiro. Até porque Silverstone pode ser, sim, a casa do rival. Mas é um dos locais preferidos dele para fazer aquilo que mais gosta. E, se Rubens estiver inspirado, pode ser que consiga a décima vitória dele, que seria também a centésima do Brasil na Fórmula 1.

Sendo assim, não custa incentivar: PUSH THE BUTTON, RUBENS!

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Um Comentário

  1. Lucas Brunini
    Escrito 22 de junho de 2009 em 10:39 | Permalink

    Sou fan do Barrichello e detesto as teorias da conspiração contra ele, mas é inegável que na Ferrari foi ofuscado pelos privilégios dado ao Schumacher. Na BGP, comecei muito confiante que isso não se repetiria, mas fiquei revoltado após o GP da Espanha. Barrichello domina todo o fim de semana, aí no sábado o Button copia o setup do Barrica e faz a pole pois erraram no combustívl do Rubens; na corrida alteram as estratégias além de calibrar os pneus do rubens diferente no segundo trecho. Fora os problemas de cambio na Austrália e Turquia.

    Brawn é um gênio e vencedor, mas fica cada vez mais claro pra mim que ele é daqueles que fazem tudo pela vitória, mesmo que se precise sacrificar um piloto que é da sua própria equipe para favorecer o outro.

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Jornalista, 35, blogueiro, carioca, taurino, apaixonado e pseudopiloto de kart.